Poesias de 1 a 99

Poema #44: Numa Janela do Mundo

As nuvens tecem
uma história diária
e sem antecedentes.
Não sei se pode
chamar de trabalho
(o trabalho das nuvens)
o que parece ser mais
um deslizar contínuo
de um sonho que não
se sabe a si mesmo
e apenas escorre
para um vazio profundo.

Eu, que estou na janela,
vejo as nuvens
e não enxergo a razão
de se estar a vê-las
sem que se possa
interferir ou sustar
a sua indiferença.
A vida humana é mesmo esse
estar-sempre-dependurado
a uma janela da inércia
fechada para o infinito.

Inventário de Sombras

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

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